O filme Passa Folhas documenta a performance coreográfica com o mesmo título, criada em 2024, e apresentada no Pavilhão de Portugal da 60.ª Bienal de Veneza, no Palácio Franchetti.
Passa Folhas é uma obra coreográfica para quatro intérpretes que explora o jardim crioulo enquanto prática de contra-plantação.
Os jardins crioulos funcionavam como práticas de plantação paralela e autossuficiente, que salvaguardavam práticas culturais e espirituais ancestrais, e que se opunham ao sistema de plantação colonial dominante.
Ecoando o pensamento da dramaturga e filósofa jamaicana Sylvia Wynter (1971), o jardim crioulo instalado no Palazzo Franchetti ganhou forma através de vários canteiros que ativavam estas contra-histórias ao propôr novas práticas de plantação.
A performance é desenhada a partir da ideia de uma distribuição mútua pelo espaço, múltiplas posições e coreografias. O título refere-se ao ritual de “passar folhas” sobre o corpo para afastar espíritos, uma prática usada nas cerimónias de Umbanda, no Brasil. Estas práticas surgiram também nas Caraíbas e nas ilhas do Leste Africano. O método de cura através da convocação de espíritos sobreviveu à Passagem do Meio*, e foi sendo passado de geração em geração como resistência às condições desumanas em que as populações viviam.
Estas práticas incluem chás de ervas, banhos, fumos com aromas e plantas medicinais que dão conforto e calma ao corpo e, consequentemente, aos espíritos que o habitam. Uma característica vital dos jardins crioulos é a ocultação da disposição das plantas, que estavam escondidas à vista das autoridades das plantações.
Ocultar e tornar opaco são duas dimensões que caracterizam as práticas afro diaspóricas. Em Passa Folhas, estas práticas emergem através do camuflar do corpo, dos gestos que nos lembram esculturas que já existem, da fusão do corpo com plantas, com as cores e com texturas do espaço performativo.
O conceito “de pernas para o ar” é central neste trabalho: os corpos surgem em coreografias que lembram constelações aleatórias, desaparecem em gavetas da biblioteca e assumem posições invertidas no jardim.
Estas posições relacionam-se com a cosmologia de Kalunga, que como observou o históriador Americano Thomas Desch-Obi, relacionam-se com as artes marciais. As posições invertidas da capoeira refletem o mundo invertido dos ancestrais, e também as de Engolo (ou Ngolo), arte marcial proveniente de Angola, que tem por base o apoio do corpo sobre as mãos enquanto se executam golpes com o corpo invertido, convocando uma convocação entre passado, presente e futuro.
Em Passa Folhas, as posições invertidas são vistas como uma forma de organizar o corpo no espaço sem esquecer os mundos com os quais este se articula. Este mundo invertido dos nossos ancestrais é evocado através dos gestos dos intérpretes, que caminham de forma errante e ficam de cabeça para baixo, formando diferentes imagens ao longo do jardim. Surgem invertidos, sustentando-se apenas sobre a cabeça, contra o chão e desafiam a gravidade como se flutuassem ou estivessem suspensos. Estas posições espalham-se pelo jardim de forma aleatória, tanto no tempo como no espaço, ligando-nos a esse outro mundo.
O filme capta este mundo através de uma sequência de imagens transitórias e aleatórias que enfatizam as relações em constante transformação entre os intérpretes, as plantas, a arquitetura e o público.
Nota:
* Refere-se à rota marítima triangular que transportava pessoas escravizadas de África para as Américas, entre os séculos XVI e XIX.
Vânia Gala
É coreógrafa, curadora e investigadora. Integra o colectivo de artistas e curadoras que representou Portugal na 60ª Bienal de Arte de Veneza, em 2024 com o projecto “Greenhouse”. É doutorada pela Universidade de Kingston, da qual recebeu uma bolsa. Trabalha na intersecção de estudos críticos de dança, filosofia da performance e práticas experimentais em curadoria, dança e performance. Os seus interesses incidem sobre noções de recusa, (não)performances negras, opacidade (Glissant), pensamento-coreográfico, fugitividade, improvisações, hospitalidade e valor. Foi directora do Mestrado Expanded Dance Practice na London Contemporary Dance School (Londres), directora do programa BA (Hons) em Contemporary Performance Practiceno Royal Conservatoire of Scotland (RCS), e professora e coordenadora no Mestrado – MA/MFA Choreography – no Trinity Laban Conservatoire of Music and Dance. Foi professora na universidade de Kingston, Universidade de Northampton e professora Associada da Escola Superior de Dança. Exerce funções de consultoria e avaliação em projetos internacionais Manifest (EU), é co-organizadora do grupo de Teatro, Performance e Filosofia da Theatre and Performance Research Association e parte da Liga Europeia dos Institutos das Artes, exercendo funções consultivas no grupo EDI. Intervenções performativas incluem “Passa Folhas” (Bienal de Veneza), “Mesa para Práticas de Pernas para o Ar” Fundação Gulbenkian e Tramway (Escócia). Publicações recentes: Greenhouse: Art, Ecologies and Resistance e capítulo no livroAfroeuropeans: Identities, Racism, and Resistances - Routledge Studies on African and Black Diaspora.
Giulia Roversi
Coreógrafa, cineasta de dança e bailarina, possui um MFA em Coreografia pelo Trinity Laban Conservatoire of Music and Dance, em Londres (Prémio 2022), e é atualmente doutoranda em regime de prática artística em New Media and Critical-Curatorial Practices of Contemporary Creation na Academia Albertina de Belas Artes de Turim. Em 2013, participou como intérprete no videoclipe Queenie Eye, de Paul McCartney, filmado nos Abbey Road Studios, em Londres. Desde 2017, desenvolve a sua prática como coreógrafa. Trabalha em Itália, Espanha e no Reino Unido. As suas obras estrearam no Teatro Boris Eifman, em São Petersburgo (2021, paralelamente à sua participação na Choreographic Session da Academia Boris Eifman), no The Place, em Londres, no âmbito do Resolution Festival 2022, no Hangar Teatri, em Trieste (2023), e no Festival Exiter, na DanceHaus de Susanna Beltrami, em Milão (2024). Ainda em 2024, apresenta trabalhos coreográficos em contextos internacionais. A sua investigação artística centra-se na performance imersiva e na integração de práticas digitais nas artes performativas, desenvolvendo uma linguagem híbrida que atravessa a dança, o cinema e as práticas contemporâneas.
Coreografia: Vânia Gala
Realização: Giulia Roversi
Assistência dramatúrgica e coreográfica: Teresa Noronha Feio
Interpretação: Gio Lourenço, Emilia Ferreira, Luiza Vilaça e Mavá José
Organização e Comissariado:
República Portuguesa
DGArtes